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Desafios que promovem a reflexão de pais

“Baleia Azul”, “13 reasons why” e “bullying” são expressões que  estão presentes nas conversas de adolescentes, pais e educadores de todo o país com uma frequência que alerta para a necessidade de se refletir sobre o tema.

Nos adolescentes, a discussão nunca esteve tão presente. Além do jogo “Baleia Azul” — um conjunto de 50 desafios que seriam feitos a adolescentes, incluindo automutilação e suicídio, e que funcionaria em aplicativos de bate-papo – ,  há também a série da Netflix,  “13 reasons why” (“13 razões pelas quais”, em tradução livre), que trata de uma garota que se suicida após ser alvo de bullying e atos criminosos de colegas de escola. O sucesso da série no Brasil tem um contexto: dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mostram que 17,5% dos alunos brasileiros com 15 anos sofrem bullying e 11,8% relataram insatisfação com a própria vida.

LIMITES NECESSÁRIOS

A facilidade de acesso à internet parece  tornar mais vulnerável a exposição de jovens e adolescentes a ambientes de risco. O que não significa que devemos proibir o eu uso, o que estaria na contramão de praticamente todo o que vivemos nos tempos atuais. Os limites são importantes e não a repressão.  Segundo a pesquisa TIC Kids, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 80% da população brasileira entre 9 e 17 anos navega pela rede. Desses, 31% acessam a internet somente pelo celular. Nos últimos anos, entre as práticas perigosas que viralizaram na rede, além da “Baleia Azul”, estão o “jogo da fada”, que induz crianças a ligarem o gás de cozinha de madrugada, e o “jogo da asfixia”, no qual adolescentes eram desafiados a se sufocar até desmaiar. Este último chegou a causar mortes em alguns países, incluindo o Brasil.

Para Juliana Cunha, coordenadora do canal de ajuda da Safernet Brasil, ONG especializada em segurança na internet, medidas como proibir o acesso à rede, confiscar o celular e monitorar o uso de aplicativos usando programas “espiões” são fadadas ao fracasso. Elas não previnem os riscos e comprometem o vínculo de confiança entre pais e filhos.

“Os pais devem estabelecer acordos. Sem imposição, mas acordos negociados, como a definição dos horários adequados para usar o celular, por exemplo. Ou compartilhar a senha das redes sociais do filho. O que não pode é ver escondido o que o adolescente faz na internet “, destaca.

Para entender o poder da rede, basta saber que o “jogo da Baleia Azul” tem origem, na verdade, em uma reportagem falsa publicada na Rússia em março de 2016, como apontou a Safernet da Bulgária. A matéria mentirosa afirmava que 130 adolescentes russos haviam se matado depois de participar do “jogo”. Quando o assunto chegou ao Brasil, as buscas no Google por “Baleia Azul” aumentaram em mais de 1.000%. Ao lidar com o tema, um erro comum aos pais é minimizar a dor que crianças e adolescentes sentem.

Especialistas envolvidos com esse debate salientam a importância do papel dos pais em lançar um olhar mais atento sobre seus filhos visando reconhecer comportamentos que possam  alertar para alguma situação diferente do habitual. Mas, mais do que ter essa preocupação pontual, é importante que pais e mães se aproximem sempre de seus filhos e os faça reconhecer, em seus cuidados, o porto seguro que  lhes trará confiança, otimismo e autoestima para se desenvolver de forma saudável.

Pais e as escolas precisam entender que as emoções importam e estar atentas às expressões de suas crianças e jovens.  Do mesmo jeito que ensinamos as crianças a nadar e andar de bicicleta,   devemos ensiná-las a lidar com suas emoções.

Desde que a série “13 reasons why” estreou no Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) — que reúne mais de dois mil voluntários para atender pessoas que pensam em suicídio — registrou um aumento de 445% no número de e-mails recebidos. Com a disseminação do “Baleia Azul”, delegacias de várias partes do país abriram investigações para rastrear as mensagens em aplicativos e estabelecer relações entre mortes e mutilações e o jogo. A repercussão fez com que suicídio passasse a ser discutido, pela primeira vez, entre muitos pais e filhos.

ENTENDENDO OS SINAIS

Alguns sinais costumam se manifestar quando os jovens se sentem insatisfeitos. E é importante saber identificá-los para lidar com eles e promover uma maior aproximação com seus filhos.

— A família tem que criar uma nova possibilidade de intimidade, porque aquela que os filhos têm com os pais desde a infância não preenche mais. Cada família vai descobrir a solução de uma forma. Pode ser no esporte, cozinhando juntos, jogando videogame.

— O adolescente tem tendência a idealizar coisas. Se ele idealiza que uma pessoa que entrou no jogo com a automutilação  resolveu seu problema, pode achar que isso funcionará para si.

— Discutir o que leva ao suicídio e dar informações sérias sobre o tema, sem idealizações, é importante e pode até frear esse efeito.

— Uma criança que tem baixa autoestima fica refém do bullying, seja ela o praticante ou o alvo, e passa a responder de forma negativa a determinados problemas do cotidiano. Já outra que tenha habilidades emocionais saberá procurar ajuda.
Texto editado a partir de leitura no jornal O Globo  e informações compartilhadas no JEDUCA (grupo de jornalistas de Educação).

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