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Pais precisam aceitar que os filhos cresceram

Filhos também têm o direito de aprender com os próprios erros

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Com o passar dos anos, bonecas, carrinhos e álbum de figurinhas cedem espaço para a turma de amigos, namorados e instrumentos musicais barulhentos. Os filhos crescem e, com eles, surgem novas situações, novos grupos sociais e uma porção de descobertas para explorar.

Em geral, a relação entre pais e jovens fica abalada. De um lado, pais que não percebem a transformação ou que seguram as rédeas para evitar que a prole se desvirtue ou sofra com traumas e decepções. Do outro, os filhos tentam reafirmar a nova fase ou, eles próprios, não conseguem aceitar que a cobrança dos pais ocorre justamente porque eles já são vistos como jovens adultos. “Um filho bem informado e amado sabe até onde pode ir e não vai procurar nada que fuja dos valores que lhe foram passados”, diz a psiquiatra Ivete Datar.

O problema é que tanto para os pais quanto para os filhos, esta adaptação é demorada e dolorosa, afinal é difícil para os pais assumirem para si mesmos que é hora de cortar o cordão umbilical e deixarem os filhos partirem, mesmo que isso signifique decepções e traumas. Para os filhos, é um desafio tomar decisões sozinhos. Por isso, a psiquiatra sugere moderação: “os filhos vão aprender com os erros. Têm que provar para saber o que é bom ou ruim para eles e entenderem até que ponto são capazes de decidirem por si mesmos, isso é saudável”, explica Ivete.

“Quando vi minha mãe ali com a cinta na mão, quase tive um treco, foi o maior mico. Quero sair com minhas amigas da escola, ir para a balada e chegar a hora em que eu quiser sem perseguição. Sei que não vou fazer nada de errado, só quero meu espaço”, conta.

Por que é tão difícil aceitar que eles cresceram?
De acordo com Ivete Datar, o maior motivo do impasse é o fato dos pais se sentirem descartados e obrigados a aceitarem a situação e seguirem em frente. Não é difícil aceitar só que os filhos cresceram. É difícil, para os próprios pais, aceitarem que também estão envelhecendo. “Entender que é apenas uma nova fase, que seus filhos não vão embora e que a velhice também é uma etapa saudável é um grande passo para resolver o conflito”, sugere a psiquiatra.

O problema é pais e filhos chegarem neste ponto de entendimento, que demanda acima de tudo, confiança. A adolescente Stephanie Suguiuri Tendzghoski de 16 anos, conta que sua mãe chegou a ir buscá-la num barzinho com o cinto na mão porque, para ela, aquilo não era lugar de moça.

Filhos não aceitam que cresceram.
Mas não são só os pais que não conseguem aceitar que seus filhos atravessam uma nova fase. Muitas vezes, são os próprios filhos que não querem receber responsabilidades naturais da vida adulta e acabam transferindo para outros o papel de cuidar deles. Diante do fato, é comum que assumam uma postura de infantilidade e dependência, passando a demandar muito mais dos amigos e do namorado, por exemplo, além de faltar com a responsabilidade em tarefas domésticas, no estudo ou no trabalho. “Muitos não conseguem lidar com as responsabilidades da vida adulta e preferem acreditar que a vida de criança não acaba. Às vezes, é até inconsciente, mas a realidade é que pessoas com dificuldades de aceitar a vida adulta não têm maturidade para vivê-la”, explica a psiquiatra.

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Cuidado x invasão de privacidade.
Para a psiquiatra Ivete Datar, os pais confundem cuidado com invasão de privacidade e fazem pequenas coisas sem perceber que não são bem-vindas. “Dar selinho na boca sem que os filhos queiram; ligar duzentas vezes com a desculpa de que está preocupado ou impedir que namorem ou cheguem um pouquinho mais tarde não é cuidado, é invasão. Seu filho tem o direito de experimentar novas sensações”, diz a psiquiatra.

Outra coisa que deixa os filhos constrangidos são os pais manterem velhos hábitos. Então, eles andam de toalha pela casa, querem entrar no banheiro na hora em que os filhos estão no banho ou dão beliscões sem entender que os filhos cresceram e que a relação que eles mantêm com o corpo também mudou; é desagradável para os dois lados. “A criança cresceu e se transformou em um homem ou em uma mulher, portanto, a privacidade é fundamental para se ter respeito na relação entre pais e filhos”, alerta a psiquiatra.

Desconfiança x expectativas.
Muitos pais ficam frustrados quando o filho não segue a carreira projetada pelo pai e pela mãe, por exemplo, ou não se revela o melhor atleta do clube. O problema é que estas cobranças excessivas podem causar nos filhos traumas como baixa autoestima e a sensação de que eles não são amados pelos pais. “Seus filhos nunca vão corresponder exatamente ao que você espera se você depositar neles todos os sonhos que sonhou para você. Eles têm vida e desejos próprios e privá-los de vivê-los é irresponsabilidade dos pais”, explica a psiquiatra.

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E aí sogrão! Como vai sogrinha?
Um dos grandes medos dos pais, quando o assunto é o crescimento dos filhos, é a relação que eles terão com o sexo. Para eles, os filhos são eternas crianças e aceitar que eles estão prontos para ter uma vida sexual ativa e desenvolver relações de afeto com outras pessoas é praticamente um tormento. Para a psiquiatra, os valores morais devem ser definidos pela família em conjunto, e daí fatores como idade para namorar, limites e horários ficam claros para todos, sem imposições. “Colocar proibições nesta fase é pedir para ser desobedecido”, continua ela. O ideal é entender que, para os jovens, sentimentos como amor e amizade têm uma dimensão diferente do que para os adultos. Conversar sobre as desilusões e medos sem impor uma conduta ou ouvir com deboche é sempre o melhor caminho.

Texto extraído pela Tribuna (vida e saúde)